domingo, 28 de setembro de 2008

F Generation

Outro dia estava conversando com a Ariane a respeito de como os limites do bom senso vão diminuindo a medida que as gerações passam, então discutimos, principalmente, como as coisas mudaram desde nossa época de escola até hoje. Na nossa época (leia-se uns 10 anos atrás, não sou tão velho assim), repetir de ano era um estigma terrível, era como se a pessoa, a partir daquele momento, tivesse que viver com o fato de que a melhor profissão que poderia arrumar seria desentupidor de fossas, catador de latinhas ou diretor do programa da Maísa. Hoje em dia parece que não é mais bem assim, repetir de ano - ou rodar, como se diz aqui em Santa Catarina - é algo normal, corriqueiro, que pode acontecer e pode não ser determinante no futuro da pessoa. Pensando logicamente, faz total sentido, sendo a única implicação o fato de você terminar o ensino médio um ano, ou mais, atrasado em relação ao resto de sua turma. Mas hoje, depois de ouvir e ler algumas histórias, algumas no blog da Paula (no momento, só para convidados), me estarreço ao perceber que os limites da alopração e dos piparotes em sala de aula ultrapassaram em muito os da minha época, quase se qualificando para serem adotados como prática no 8º círculo do inferno de Dante.

Lá em 1996, o mais anormal, desvirtuado e vilipendioso que conseguiamos imaginar como zoeira era explodir uma privada, o que naturalmente levaria o perpetrante de tal prática à expulsão sumária do estabelecimento de ensino em questão, levando consigo o terrível estigma de maloqueiro-que-atenta-contra-a-ordem-e-os-bons-costumes. Outro modus operanti era soltar o infame peido de véio, também conhecido como cordãozinho fedido, em plena aula, sendo o modo advanced da coisa enrolar vários deles e acender na aula de química, seguido do anúncio ao professor:

- Professor, acho que tem alguma coisa do material da sala fedendo.

Isso era o máximo que minha geração conseguia pensar entre um aula e outra em termos de alopração, mas a nova geração realmente levou isso a um nível completamente diferente. Vos Apresento a evidência número 1:
Tragicômico, no mínimo. Lá em 1996, comida era pra se comer ou pra encher de pimenta e dar para aquele pidão que sempre enchia o saco na hora do intervalo. Sério gente, nem nos meus sonhos mais selvagens eu conseguiria imaginar algo tão pungente, tão capaz de denegrir a imagem de uma pessoa. Fico imaginando o tamanho do trauma da pessoa que levou a maria-molada, quão pequena aquela pessoa se sentiu, não sendo digna nem de uma borrachada ou de uma errorexada, também conhecido como corretivada. Pobre da alma da pessoa cuja dignidade é menos densa que uma maria-mole.
Agora, vos apresento a evidência número 2:Vemos que nesse caso temos a repetição do fator comida na peça pregada, o que nos leva à indagação: seria o aluno em questão o mesmo do comunicado anterior, só que com gadgets tecnológicos e novas técnicas de humilhação? Porque, convenhamos, isso é um ataque psicológico direcionado aos presentes na sala que amam religião ou odeiam misto quente. Depois de muita leitura de tratados filosóficos da época trágica grega e dos filósofos alemães modernos, cheguei à outra indagação elementar: como que um professor vê um aluno tirar uma torradeira de dentro da mochila e não pensa que o moleque vai aprontar? Creio que o mestre deva ter pensado que o menino iria fazer um misto quente pra dar no lugar da maçã, e ficou furioso ao constatar que o aluno queria o lanche pra si. Vai saber...

Pensando no futuro dessa geração, imagino como seriam as ações desses atuais alunos perante as demandas sociais. Numa manifestação anti-qualquer coisa, ao invés de coquetéis molotov, essas pessoas lançariam pratos de dobradinha e mocotó contra a tropa de choque; já pensando no caso da vida profissional, a reação perante uma demissão seria preparar um panelão de rabada na sala do chefe. Para concluir, tenho como sugestão as sábias palavras de Parmênides a Zenão de Eléia: quando seu filho começar a brincar com a comida na mesa, dê um esporro no fedelho.

3 comentários:

RafaelaMM disse...

maria-molada

ge-ni-al.

Tia Paula disse...

Rindo histericamente do misto quente na aula.

Fabio disse...

Em se tratando de misto quente, eu acredito que a decadência dos valores da nossa geração para a mais nova está no uso do português.