segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Oscar com Especiarias

Mais uma vez chegamos ao começo do mês de fevereiro. É a época em que todos começam a se preparar pra esborregar no carnaval, trabalhar após o ano novo do calendário brasileiro (no caso de 2009, no dia 26 de fevereiro, mais especificamente) e a mídia molda o gosto cinematográfico do brasileiro para a primeira metade do ano. No dia 22 de fevereiro, dias antes do ziriguidum mais querido da nação, será realizada a cerimônia do Oscar, em que a óbvia presença de Rubens Ewald Filho nos deleitará com comentários mais óbvios ainda a respeito de filmes que muitos de nós ainda nem vimos, a não ser "O Curioso Caso de Benjamin Button", "Batman - O Cavaleiro das Trevas" e "WALL-E", que já estão em cartaz ou até nas locadoras. Pela primeira vez nessa minha até agora curta vida, me adiantei a ele e assisti a todos os indicados (sim, todos, até os estrangeiros) e trago aqui, em primeira mão, após um intrincado trabalho de umbanda com mesa branca e vudu, as açucaradas análises de nosso ilustre crítico de cinema de dia de entrega de Oscars. Ah, e se não for incômodo, os meus também. Por enquanto, me delimitarei a falar dos indicados a melhor filme, já que é a categoria que todos esperam, afinal milhares de presentes de amigos secretos de empresa no final deste ano dependem da decisão da Academia.

O Curioso Caso de Benjamin Button

O primeiro filme que assisti foi a coqueluche da estação: "O Curioso Caso de Benjamin Button". O roteiro foi adaptado de um conto fodíssimo de F. S. Fitzgerald, conto esse que é cheio de sarcasmo e cinismo. Já na adaptação cinematográfica da coisa, o dramalhão e o conceito de "filme água com açúcar" entram em jogo com uma botinada na porta, sendo este o filme mais idealista e bobinho dentre todos os indicados. Da história todo mundo meio que já ouviu falar: Benjamin Button é um cara que fica mais jovem com o passar do tempo, o que basicamente virou uma desculpa na mão do roteirista Eric Roth para toda a história virar uma narrativa de superação e "carpe diem". Pra não me alongar mais a respeito, só preciso dizer que Roth foi o roteirista de "Forrest Gump", e então eu deixo você, leitor, fazer a associação. O chamariz do filme, certamente, é ver Brad Pitt velho e ficando jovem aos poucos (parabéns, galera dos efeitos especiais), e mais ainda, subconscientemente, muita gente acaba indo ver o filme pra ver o Brad Pitt com aquela cara de novinho que ele tinha em "Thelma & Louise". O lado bom desse filme é que eu já sei que filme indicar pra minha mãe ver, pois prefiro muito mais o conto original, que esse sim, é do bom! (Para ler o conto, clique aqui)

Rubens Ewald Filho diria: "Sem dúvida, um filme que explora de forma excelente o medo de envelhecer e, ao mesmo tempo, a insegurança de ser jovem. Para toda a família."

OBS: Na verdade, acabo de checar no blog do supracitado crítico que a opinião dele a respeito do filme é praticamente a mesma, inclusive elogiando o conto e malhando o roteiro adaptado.

Slumdog Millionaire

Já vou dizer sem rodeios: esse sim é um filme que merece estar nessa lista. Danny Boyle, o cara que dirigiu aquele primor de filme chamado "Trainspotting", pisou na bola feio em ter filmado "A Praia", um dos filmes mais pífios e insignificantes que já vi na minha vida, exatamente ao lado de "Almôndegas" e "Pokémon 2000", porém, com "Slumdog Millionaire", o cara tirou a corda do pescoço com honras militares. O filme conta a história de um garoto que está sendo interrogado pela polícia, sob suspeita de fraude, após sua participação num programa televisivo nos moldes do nosso famigerado "Show do Milhão". Apesar de ser um pouco idealista, a película retrata uma vida miserável sem chorar as pitangas, o exemplo-mór disso é a cena em que o protagonista, ainda criança, se joga num buraco cheio de merda pra pegar um autógrafo de um ator bollywoodiano. A edição do filme é um primor, coisa linda de D'us, o revezamento de cenas de flashback com a participação do protagonista no gameshow e sua presença na delegacia tocam o ritmo do filme, ritmo esse, aliás, que é outro ponto fortíssimo na obra: a trilha sonora é outro primor, coisa linda de D'us². Essa junção de edição dinâmica com trilha sonora contagiante não deixa o espectador tomar fôlego, principalmente nos últimos 20 minutos do filme. Um dos filmes obrigatórios do ano.

Rubens Ewald Filho diria: "Sem dúvida, um filme que explora de forma excelente os costumes exóticos da Índia e que nos ensina que o amor supera todas as barreiras. Se você gosta de curry, não assita."


O Leitor

Muitos filmes tentaram abordar o Holocausto sob a ótica dos sobreviventes e mais outros através da ótica de quem matou, mas conseguiu escapar da perseguição do pós-guerra. Obviamente, é mais fácil fazer um filme de amolecer o coração com os sobreviventes, já que tudo que é necessário está incluído no pacote: o sofrimento, a obstinação, a esperança, tudo o que toca o coração de uma pessoa comum. Mas esse filme é diferente disso, muito diferente.
Nele, o diretor Stephen Daldry buscou mostrar a complexidade do sentimento que toma o povo alemão até hoje quando o assunto é o Holocausto. A história se desenvolve ao redor do relacionamento do protagonista do filme, quando jovem, com uma mulher muito mais velha que ele, mulher essa que, após alguns anos, é levada a julgamento por crimes de guerra. O protagonista, que na época estava estudando Direito, assiste ao julgamento sem poder interceder no processo, apesar de possuir uma evidência importante que pode mudar a sentença.
O começo, onde o relacionamento inicial é retratado, é bem arrastado (o protagonista e a mulher, interpretada por Kate Winslet, trepam até você perder a conta, mesmo se você tentar contar), mas esperar até o fim do primeiro terço do filme vale a pena, pois uma série de questões bem interessantes são colocadas para a avaliação do espectador. Infelizmente o diretor não foi capaz de explorar adequadamente o sentimento de vergonha, ressentimento, remorso e confusão que aflige os alemães da segunda geração do pós-guerra. Como o filme foi adaptado de um livro homônimo do escritor alemão Bernhard Schlink, acredito que a migração pra telona não foi capaz de carregar toda a complexidade da questão, ou pelo menos a quantidade necessária para um debate a partir do filme ser possível, ou talvez seja porque só um alemão consegue expressar apropriadamente esse sentimento (se for do interesse do leitor, "Eichmann em Jerusalem: um relato da banalidade do mal", de Hannah Arendt, é leitura recomendadíssima pra entender melhor esse assunto). Ainda assim, esse filme mereçe ser visto, principalmente pela atuação foderosamente cabulosa de Kate Winslet.

Rubens Ewald Filho diria: "Sem dúvida, um filme que explora o amor juvenil e as desilusões da vida adulta de forma excelente. Tire as crianças da sala."



Milk

O tema é espinhosíssimo: a vida de Harvey Milk, o principal ativista pelos direitos dos homossexuais na história dos Estados Unidos. Em 1991, Oliver Stone planejava produzir um filme baseado na vida de Milk, chegando até a escrever um roteiro, mas o projeto não foi pra frente. No ano seguite, Gus Van Sant começou a produzir uma obra com o mesmo tema, mas divergências com o estúdio com que ele havia assinado fez com que os planos fossem por água abaixo. Não foi até 2007 que a coisa voltou a andar e o filme começou a sair do papel, até seu lançamento em 2008.
O principal mérito da obra é o roteiro ter chego até o limite exato do retrato de uma comunidade homossexual que se formava no oeste dos Estados Unidos, sem cometer o que seria o infeliz deslize de cair na extravagância, o que faria o filme perder um absurdo em qualidade. Basicamente, o roteiro anda no fio de uma lâmina na qual um vacilo significaria a perda de todo o sentido da obra em nome do exótico. Também merece destaque a direção de fotografia, que fez do uso de uma granulação mais alta nos filmes, o que faz com que a ambientação fique ainda mais autêntica. Quanto à atuação de Sean Penn, não há nada a ser dito além de "o cara tá com uma mão no Oscar de melhor ator".

Rubens Ewald Filho diria: "Sem dúvida, um filme que explora de forma excelente o ambiente político dos anos 70 e o sacrifício de um homem por seus ideais. Se joga!"



Frost/Nixon

Outro filme com tema espinhosíssimo, Frost/Nixon é, na minha opinião, o melhor de todos os filmes indicados, exatamente por fazer interessante um tema complicado, batido e fácil de se tornar entediante para o espectador. A história gira em torno da filmagem da série de entrevistas concedidas por Richard Nixon para o apresentador britânico David Frost três anos após a renúncia do ex-presidente. O que torna a coisa toda interessante é a óbvia inabilidade de Frost de arrancar de Nixon a confissão que todos os americanos esperavam no seu discurso de renúncia, e todo o esforço do entrevistador pra tentar achar um meio de consegui-lo. O trabalho de edição é o ponto mais forte do filme, trabalho este que passa toda a tensão e sensibilidade do momento em que a obra se passa, além da fotografia, que também é algo sensacional.
Um mini-spoiler que eu não posso deixar de fazer: a crítica especializada vem glamourizando esse filme como edificador, dizendo que o que acontece no final é uma prova de que a imprensa em busca da verdade absoluta é o tema do filme. Tudo conversa fiada, fica clara que a agressividade e determinação de Frost pra conseguir extrair a confissão de Nixon está embasada no fato de que ele estará arruinado finaceiramente pra sempre se não conseguir que Nixon admita seus crimes. Na boa, às vezes eu não sei o que dá na telha desse povo da crítica.

Rubens Ewald Filho diria: "Sem dúvida, um filme que explora de forma excelente a questão da política americana pós-caso Watergate. Se tiver ensino médio completo, assista."

2 comentários:

Rodrigo Souza disse...

Sem dúvida, uma postagem que explora de forma irônica a forma Ctrl+C Ctrl+V como o supracitado crítico de cinema faz seu trabalho e ganha seus milhares de reais. Se você tem dinheiro, entre no bolão da firma pro dia 22.

joêzer disse...

retribuindo a visita.
frost/nixon era o melhor deles, gostei tb de 'o leitor' ou 'como impressionar uma analfabeta com seu bom gosto literário', me diverti com o show do milhão com história ou 'slumdog millionaire', ainda não vi o milk, mas todas as borboletas roliudianas sabiam da vitória do sean penn, e não vi graça nenhuma no 'curioso caso de forrest gump' (assim mesmo).